“A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo de sua nação” (Hobsbawm, 1997, p. 171)

Uma de minhas professoras da Graduação foi presa política durante a ditadura. Ela era do movimento estudantil de esquerda e foi presa durante o regime militar antes que pudesse sair do Brasil. Na prisão, ela foi acomodada com outras presas políticas, todas críticas do regime e lutando por um novo governo. O Brasil, para elas, era uma figura conflitante: algo que simultaneamente odiavam (ódio ao regime, aos militares, aos apoiadores) e cogitavam amar (o que era a luta política senão uma luta para construir um Brasil melhor?).

Acontece que essa minha professora estava presa bem em ano de Copa do Mundo. Os jogos do Brasil seriam exibidos para as presas, e houve uma divergência entre elas: algumas queriam torcer a favor, outras contra. Nessa disputa, estavam em jogo concepções distintas de nação: para um grupo, o nacionalismo era o patriotismo do regime militar autocrático, e o Brasil era representado pelas injustiças do governo; para o outro grupo, o Brasil ia além do atual governante, era uma promessa de uma nação maior do que aquele regime. Sem entrar em acordo no debate, decidiram votar, e a maioria preferiu torcer a favor. Porque queriam manter a coesão entre as presas políticas, ficou proibido torcer contra; era permitido apenas não torcer.

O jogo começou. A partida era acirrada. E algo surpreendente foi acontecendo: as presas políticas que queriam torcer contra o Brasil e que tiveram que se resignar com um silêncio ativista, começaram a ser movidas pela energia do jogo, talvez do grupo, e não conseguiram se conter. Mesmo tendo racionalmente decidido que seu posicionamento político era condizente com torcer contra o país, elas não conseguiram evitar: comemoraram juntas os gols feitos, comiseraram juntas os gols tomados. Foram acometidas pelo nacionalismo em campo, suas emoções em descompasso com sua lógica.

***

Essa história me fascina desde a primeira vez que eu a ouvi, quase dez anos atrás. Minha emoção também entra em descompasso com a minha lógica: mesmo não sendo particularmente nacionalista ou apreciadora do futebol, quando estou assistindo a um jogo da seleção masculina brasileira com a minha família torcedora, meu corpo também reage à vibração deles. Como compreender isso?

Intelectualmente, eu quase diria que sou contra o Estado-nação como organização política, considerando todas as violências necessárias para criá-lo e mantê-lo. Entendo que esse “intelectualmente” pode entrar conflito com um “emocionalmente”, mas a pergunta persiste: como compreender isso?

Nessa Copa de 2026, essa inquietação voltou a me revisitar. Acompanhando os jogos junto à minha família, um certo ceticismo inicial de minha parte ia aos poucos cedendo lugar a uma atmosfera de esperança e comemoração. De modo geral, pareceu-me que a torcida brasileira nessa Copa foi somente aos poucos entrando na onda, jogo a jogo… até o Brasil eventualmente perder. Esse processo me intriga — esse descompasso entre um nacionalismo crítico e deixar-se tomar por momentos nacionalistas de quando em quando.

Buscando compreender o que está em jogo nesse descompasso, reflito, neste ensaio, sobre o cruzamento da Copa do Mundo com meus sentimentos antinacionalistas, na tentativa de entender por que pessoas torcem por seus países e, mais ainda, por que pessoas críticas acabam sendo absorvidas pelo clima de comemoração e se veem torcendo junto.

“Vocês realmente gostam de futebol? Eu só uso os jogos como forma de medir quem está moralmente correto em disputas internacionais”. Fonte: https://twitter.com/ZubZhub/status/2076691458111701117

O goleiro: anarquista quase (o Estado-nação e minhas críticas)

É quase impossível falar de Estado-nação sem falar de Benedict Anderson. Ele define a nação como uma “comunidade imaginada”:

É imaginada porque os membros até mesmo da menor das nações jamais conhecerão a maioria de seus concidadãos, encontrar-se-ão com eles ou sequer ouvirão falar deles; contudo, na mente de cada um, vive a imagem de sua comunhão (Anderson, 1991, p. 6, tradução minha).

Há, portanto, uma identidade compartilhada, “institucionalizada por uma soberania política que actua como mecanismo de homogeneização social sobre vários tipos de diferenças e desigualdades de classe, de género, de etnia” (Coelho, 2004, p. 120). A nação, aqui, é uma imaginação ditada na mesma temporalidade para todos: há uma construção de leituras dos mesmos jornais, dos mesmos livros; engajamento nas mesmas redes sociais.

Nessa leitura, a Copa do Mundo faz parte dessa temporalidade: todos assistindo juntos, ao vivo, aos jogos. Importantemente, a comunidade imaginada da nação carrega legitimação emocional: é incentivado que se sinta afiliação com a nação, e ela é considerada uma das afiliações primárias e principais que um sujeito deve ter.

Outro autor que discorre sobre a identidade nacional é Stuart Hall, para quem “uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos” (Hall, 1999, p. 50). Esses sentidos se baseiam na história e memória que se constrói sobre a nação (Guedes, 2002). Tudo faz parte de uma “narrativização do self” (Coelho, 2004) — a construção de uma identidade coletiva na forma de nação é uma narrativa deliberadamente construída para que a organização política do Estado tenha sucesso. De fato, a formação desse discurso nacional é politicamente bem-sucedida, considerando a completa aceitação do Estado-nação como única forma possível de organização social. Assim, a identidade nacional é imposta sobre outras formas de pertencimento social — na formação dos Estados como forma de organização do mundo, é preciso que a população tenha afinidade com o próprio país, que dê a vida por ele, que se identifique com ele acima de outras identidades.

Um exemplo disso no Brasil foi a busca por uma identidade nacional durante a ditadura Vargas (1937-1945), “pois era necessário criar elementos como povo e nação para atenuar tensões políticas […]. O Estado precisava construir uma identidade coletiva nos cidadãos, como uma atividade disciplinadora, para evitar revoltas políticas” (Costa; Malcher, 2011, p. 2). Assim, o nacionalismo é esse processo de legitimação do poder do Estado.

O futebol faz parte dessa construção de identidade nacional, tanto numa homogeneização interna (“Brasil país do futebol”), “envolvendo quase sempre ideias de vitória, glória, bravura, heroísmo, sacrifício, superioridade e unidade” (Coelho, 2004, p. 122-123), ideias que se refletem em conflitos com o Outro.

Arjun Appadurai (2013, p. 109), um antropólogo indiano conhecido por seus trabalhos sobre modernidade e globalização, afirma que a nação é um “objeto de intimidade e afeto”, ponto central para esta reflexão sobre nacionalismo crítico. Para Brennan (2008, p. 3, tradução minha), “as emoções ou afetos de uma pessoa, e o efeito animador ou depressor das energias desses afetos, podem passar de um para o outro” — o que quer dizer que o afeto afeta o coletivo, são emoções que têm o poder de passar de pessoa em pessoa e eventualmente constituir um coletivo que sinta sensações similares. Gregg e Seigworth (2010, p. 1, tradução minha) afirmam que “o afeto nomeia aquelas forças que movem corpos, e que operam diferentemente da tomada de decisão ou conhecimento consciente” — ou seja, o afeto é algo pré-consciente, não necessariamente racional: ele age em uma lógica diferente do lógico consciente. Assim, se a nação é também um afeto, movida por emoções coletivas que se agregam em uma identidade conjunta, ela deixa de ser uma categoria estática, na medida em que está em constante disputa por diferentes afetos.

Eu particularmente tenho muitas críticas ao Estado-nação: não se trata de uma organização “lógica”, no sentido de separar pessoas já conectadas por uma identidade, mas sim uma entidade construída. Por exemplo, não se separam nações porque todos falam uma mesma língua, mas se impõe linguagem em um território após ele ser demarcado como um Estado-nação. Esta não é, portanto, uma organização política natural ou lógica; e toda a sua trajetória é respaldada por violências, além de baseada na construção de uma alteridade rejeitada e sempre passível de ser destruída – daí minha posição crítica quanto à nação. Se não me constituo como uma pessoa particularmente nacionalista, o que prevalece em tempos de Copa, em um momento de performance de nacionalismo e reforço do discurso da nação: minha razão ou os afetos que me atravessam?

O zagueiro: minha visão cética da Copa do Mundo

Eu assisti ao jogo Brasil x Noruega com a minha avó. Quando lhe perguntei se estava torcendo para o Brasil, ela apenas me respondeu “não gosto de esporte, nem de religião. Só serve para enganar o povo”. Nos meus termos, a Copa opera como um duplo recurso: de manipulação emocional, com vistas a constituir e fortalecer uma concepção de nação; e de manipulação política, para que as mazelas de governos sejam deixadas de lado durante aquele período.

Embora manifestações políticas sejam proibidas na Copa, esta não deixa de ser inerentemente política. Há muito é estudada a importância dos esportes, especialmente do futebol, para fins político-ideológicos, “como uma forma de expressão de luta nacional, com os esportistas representando seus estados ou nações” (Souza, 2020, p. 187).

No geral, o futebol foi usado como propaganda das ditaduras italiana, brasileira, argentina e portuguesa (Coelho, 2004); neste ano, vimos a suspensão dos efeitos do cartão vermelho do atacante estadunidense, Folarin Balogun, por pedido direto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, liberando o jogador para a partida contra a Bélgica. De acordo com o The New York Times, a Casa Branca também teve um papel ativo na coordenação de uma estratégia jurídica para a Copa junto à Federação de Futebol dos Estados Unidos: “Entre os envolvidos estavam o secretário de Comércio, Howard Lutnick, o diretor da força-tarefa da Casa Branca para a Copa, Andrew Giuliani, e Scott Goodwin, investidor e doador da US Soccer” (Montanini, 2026).

“Obrigado FIFA por fazer a coisa certa e reverter uma grande injustiça!” Presidente DONALD J. TRUMP – EUA. Fonte: https://twitter.com/WhiteHouse/status/2073818820901302482

Isso tem precedente, e são muitos os exemplos[1]. Em 1962, na Copa do Mundo do Chile, o meio-campista brasileiro Garrincha foi expulso na semifinal contra a seleção anfitriã. No tribunal da Federação Internacional de Futebol (FIFA, sigla em inglês), que julgava se haveria expulsão, o brasileiro foi absolvido por 5 votos a 2 e seguiu para disputar a final: “Há relatos de que houve pressão política brasileira e até do então presidente chileno, Jorge Alessandri, para liberar o meio-campista” (Montanini, 2026). Em 1934, no Mundial da Itália, o ditador Benito Mussolini chegou a escolher árbitros de partidas da seleção da casa (Montanini, 2026). No Brasil, são muitos os casos de aproximação e interferência de governantes no futebol: como sustenta Souza (2020, p. 187), a própria “inauguração do Maracanã estava inserida num projeto que procurava construir uma imagem do Brasil como país empreendedor, vitorioso e bem-sucedido”. No caso de Trump, muito de sua política migratória causou preocupações e problemas no início da Copa, mas a FIFA trabalhou para diminuir as tensões, ou a visibilidade destas.

Nos termos aqui mobilizados, os governos utilizam, nessas ocasiões, o futebol para construir afetos nacionais. É importante lembrar que sempre há tensões e disputas nesses afetos: a força de um afeto nunca se dá em linha reta, e ele pode ter consequências diferentes daquelas originalmente pensadas, e pode também ser cooptado. Cabe destacar que o ceticismo também é uma emoção. Assim, percebemos que pensar em termos de afetos eventualmente significa rejeitar o binário razão vs. emoção — as coisas estão interconectadas e é impossível ser “puramente” lógica ou racional, e toda emoção tem uma lógica afetiva por trás.

Pensando assim, minha crítica ao Estado e minhas reações aos jogos quando os assisto em família são disputas de afetos que me atravessam. A pergunta se mantém, agora em outros termos: como a mobilização ou o atravessamento de afetos positivos faz com que pessoas abandonem afetos críticos e céticos durante certo tempo? Em seguida, veremos uma colcha de retalhos de diferentes afetos que podem ser despertados durante a Copa.

O lateral direito: família e apego emocional

Foi com a Copa de 2006 que eu me envolvi de maneira mais intensa. Eu tinha oito anos de idade e, para mim, os jogos não representavam um país ou um governo, mas um momento especial com meu pai. Essa era a única forma pela qual eu conseguia entender o futebol e a Copa como afeto. De fato, é comum que familiares e amigos se reúnam para assistir jogos de futebol no Brasil, especialmente em época de Copa (Hadama, 2019). Para entender melhor essa relação entre futebol/Copa e afeto, entrevistei três pessoas torcedoras[2] para entender por que torcem.

Um dos entrevistados, Pelé, lembra de torcer para as Copas com seu pai, agora falecido. Recorda de 1978, sua primeira Copa, e de 1982, Mundial em que a qualidade da seleção brasileira dava prazer em ver os jogos. O ano de 1982 também foi marcado pela separação de seus pais, razão pela qual ver as partidas da Copa também representava um momento de união familiar.

Outra entrevistada, Cristiane, assistiu todas as partidas desta Copa, menos o jogo em que o Brasil perdeu e, por mais que racionalmente saiba que o Brasil não perdeu porque ela não estava seguindo sua tradição de família, a superstição pesa, e ela lamenta que “deveria ter estado lá”. Conforme seus pais foram envelhecendo, torcer em família se tornou cada vez mais importante, como momento de união e companheirismo: “essa coisa de estar em família, nos últimos anos, está mais forte. Então, quando tem essas coisas, a gente prefere. Jogos do Brasil, a gente gosta de estar junto”.

Neste ano, no qual me interessei mais pelo esporte pela minha curiosidade de não-torcedora não-nacionalista, foi o ano em que mais me aproximei do meu pai. Vimos vários jogos juntos, inclusive de outras equipes, e ele até assistiu vídeos de análise de futebol comigo para a escrita deste texto. Junto com o afeto da nação, compõe a mistura esse afeto emocional familiar, que nos faz constituir como um grupo.

O lateral esquerdo: o amor pelo esporte

Também apareceu nas entrevistas o amor pelo futebol em si. De fato, grande parte da população gosta de futebol como jogo, como lazer, como esporte de escolha (Hadama, 2019). Para o entrevistado Pelé, a paixão pelo futebol começou aos nove/dez anos de idade. O mais importante para ele é de fato assistir o jogo;mesmo quando está em grupo, não gosta das distrações da festa, do churrasco: “Começou o jogo, eu já me foco nele”.

Embora eu não tenha afetos particularmente ligados ao futebol, este certamente é um afeto presente, especialmente no Brasil, país em que é muito forte a cultura de futebol e uma identidade construída a partir do jeito de se jogar futebol.

Aqui, cabe destacar que um conjunto de aspectos que tem frustrado parte da paixão pelo futebol está relacionado com a transformação dessa modalidade esportiva em um negócio multimilionário. Em sua entrevista, Pelé confessou: “não acredito na FIFA e nem na CBF [Confederação Brasileira de Futebol] (…). Para mim é um mar de lavar dinheiro”. Marta também critica o envolvimento das bets com o patrocínio de eventos e de equipes: “Para mim, deveria ser ilegal aceitar patrocínio desse tipo de empresa quando o resultado dos jogos e dos atletas tem não só relação direta com perdas monetárias de torcedores, como coloca em dúvida a integridade do esporte”.

Se é verdade que Estado e capitalismo têm um relacionamento antigo, a intensificação do cruzamento entre capitalismo, futebol, nacionalismo e Estado-nação compõe parte dos afetos de frustração com o que veio a ser feito do “negócio futebol” hoje em dia. Nas palavras do entrevistado Pelé, “[Futebol] era mais legal. Depois, ele foi perdendo um pouco da paixão, mais pela conjuntura de entrar bet: entra cara que faz plano para ganhar, jogador que se vende, ‘olha, vou tomar o cartão amarelo porque eu fiz uma aposta lá’”.

O volante: relações afetivas com o time

Existe um afeto com o time em si, com os nomes da seleção brasileira. Eles representam a identidade nacional — muitas vezes, pessoas de classes mais baixas, que tiveram sua ascensão social por meio do futebol. A torcida se vê representada na seleção, vê sua nação representada na seleção e, assim, se relaciona emocionalmente com a seleção.

Surpreendentemente, o afeto com o time azedou neste ano. Em sua entrevista, Cristiane narra que foi criticada por seus familiares por ter assistido, antes do início desta Copa, aos documentários dos Mundiais de 1994 e de 2002. A vontade de jogar/ganhar que emanava das seleções naquelas ocasiões, em que o Brasil terminou vencendo o certame, não se verificou na Copa de 2026, gerando uma frustração que acabou por desmotivar a torcida. “Você já cria uma expectativa para uma realidade que não é essa agora. Então isso me dá uma frustração justamente porque eu não senti vontade nenhuma deles de ganhar”, relata Cristiane.

Muitas críticas também foram feitas à falta de nacionalismo da seleção, à falta de compromisso desta com o país e com os brasileiros (Gaiofato, 2026). O jogador foi visto como um “estrangeiro”, considerando que a maior parte dos jogadores da seleção não joga mais em times do Brasil. Exemplo disso foi a repercussão de uma entrevista com Raphinha: ao afirmar que “eu não devo nada pra ninguém, só vou responder para a minha família”, muitos meios de comunicação o criticaram pela quebra que sua declaração representava com a identificação dos torcedores com o jogador, e dele com o país. Subjacente a essas críticas, vale destacar, está a ideia de uma falta de nacionalismo; Raphinha, assim como outros, não está fazendo bem o jogo do nacionalismo, que é parte importante de toda Copa do Mundo.

Fim do primeiro tempo: atmosferas

Até então vimos afetos que podem ser levantados durante os jogos da Copa, afetos afiliados com o nacionalismo que os jogos tentam evocar: apego familiar, amor pelo esporte, e afeto pela seleção brasileira. A seguir, consideraremos quatro formas com que esses afetos são constituídos, ou seja, elementos que funcionam como criadores e mobilizadores de afetos.

Para isso, o conceito de “atmosfera” (McCormack, 2008) nos ajuda a compreender algo intuitivo de experienciar, mas difícil de descrever. O autor define “atmosferas” como “Algo distribuído, porém palpável — uma qualidade de imersão ambiental que se registra em e através de corpos sensoriais, ao mesmo tempo que permanece difusa, no ar, etérea” (McCormack, 2008, p. 413, tradução minha). Não raro utilizamos metáforas para descrever um ambiente: “havia eletricidade no ar”, “o ar estava pesado”: isso é o que McCormack concebe como “atmosfera” para pensar o atravessamento de uma coletividade por sentimentos, formas de criar e mobilizar afetos.

Em nossa discussão, atmosferas são parte de uma técnica de governo: a criação de atmosferas positivas para associar à nação, ou de atmosferas negativas para demarcar como nocivos aqueles que não se alinham à pátria. Assim, a formação do Estado-nação não opera apenas por meio de medo e violência, mas também por meio da construção de alegria e diversão. Nesse contexto, a problematização do Estado-nação em meio às atmosferas de divertimento é mal vista – como um “estraga-prazeres”.

As atmosferas também são uma forma de cooptar os críticos, ao atravessar com novos afetos aqueles que se sentem de alguma forma negativa (Stephens, 2015) — é muito difícil continuar bravo quando todos ao seu redor estão felizes e comemorando, as emoções ao redor vão se coletivizando em uma atmosfera. Assim, Stephens (2015, p. 2, tradução minha) afirma que “a nação é muitas vezes — ou até mesmo na maioria das vezes — experienciada como um sentimento”. Sentimentos, afetos e atmosferas são então elementos políticos, e não apenas banalidades do dia a dia: de fato, esses sentimentos nacionais não emanam unicamente do centro soberano do Estado, mas vão se constituindo em eventos banais, nebulosos e difusos (Stephens, 2015). Assim, coletividades como a nação não precedem afetos, mas são produzidos nessa circulação de emoções — e a nação em si “não foi apenas vista, mas vivenciada e sentida por meio dos ritmos, memórias e afetos desse evento esportivo de massa, e como esses sentimentos não foram simplesmente orquestrados de cima para baixo, mas, antes, transitaram entre diferentes locais e momentos” (Stephens, 2015, p. 4, tradução minha).

Vejamos, então, locais e momentos nos quais essas atmosferas são construídas na Copa do Mundo.

I) O meia-central: estádios

Meus três entrevistados afirmaram que nunca foram a um jogo da Copa do Mundo, mas gostariam de ir. O ambiente do estádio é descrito como quase mágico. Pelé conta que ia, desde menino, ao estádio (primeiro com o pai, depois com os amigos): “você ia pro estádio, (…) era aquele batuque, bum, bum, bum, bum, e aquela torcida gritando, aí você entrava, você via aquele estádio abrir, a torcida do outro time do outro lado, a sua aqui”.

Já Marta compara com outros momentos em que atmosferas são criadas: “Assim como ouvir uma música no Spotify e ouvir o cantor ao vivo tem uma diferença, a experiência coletiva é a parte mais interessante”. Essa coletividade para a qual Marta chama atenção de fato é a parte mais importante da atmosfera do estádio: nenhum sentimento é individual.

II) O meia-ofensivo: o hino

Outro elemento construtor de uma atmosfera é o hino nacional, que toca no início de cada jogo na Copa do Mundo. O hino é tão importante que, em 1966, quando a Coreia do Norte se classificou para o Mundial, a Inglaterra, à época país-sede, impediu que a bandeira norte-coreana fosse hasteada nas ruas e que seu hino tocasse nos estádios (Nexo, 2026).

Uma das entrevistadas, Cristiane, compete pelo Brasil internacionalmente e conta como é consumida pela música e o que ela representa. Durante a própria entrevista, ela exclama: “até arrepiei contando, falando com você, ficando emocionada”.

III) Pontas: disputas pelos símbolos nacionais

Os símbolos nacionais (a camisa da seleção, a bandeira, as cores…) sempre constituíram objetos de afetos em disputa: já foram símbolos da monarquia; já foram tomados para representar a população, por exemplo, na campanha Diretas Já!; agora, foram cooptados pela extrema direita. Para DaMatta (apud Hadama, 2019, p. 31), o futebol permitiu que o povo se apropriasse de símbolos nacionais “que sempre foram propriedade de uma elite restrita e dos militares (…). Foi, portanto, só com o futebol que conseguimos, no Brasil, somar Estado nacional e sociedade”.

Para Pelé, há dez anos, as pessoas usavam a camisa da seleção porque “é a camisa da seleção. (…) hoje existe um grupo de pessoas (…) que usa a camisa da seleção de forma política”. Já para Marta, durante a Copa, esses símbolos são retomados por uma ideia mais abrangente de nação, que abraça todos os brasileiros: “gosto em especial dessa época de Copa porque a camisa do Brasil volta a ser só a camisa de futebol (…). Voltamos a um tempo mais simples, onde todos esses símbolos não são apropriados por movimentos ultranacionalistas de direita, e sim para unir todo mundo em uma celebração”. Por representar o Brasil em competições internacionais, Cristiane separa seu apreço pela bandeira e pela camisa dos movimentos de direita que cooptaram esses símbolos; para ela, esses símbolos ainda podem representar o Brasil como um todo.

O que está em jogo aqui parece ser divisão vs. união: os símbolos cooptados dividem o Brasil entre esquerda e direita; quando usados em eventos como a Copa do Mundo, esses símbolos tendem a voltar a representar uma noção mais difusa de Brasil, relacionada a aspectos culturais, ao apego por concidadãos. É claro que isso não deixa de ser uma apropriação política dos símbolos, pois essa manutenção simbólica da nação também envolve um trabalho político.

IV) O centroavante: hierarquia de afiliações nacionais

Outra atmosfera característica da Copa do Mundo diz respeito a uma certa hierarquização das afiliações nacionais. Começa-se torcendo para o Brasil, mas o que acontece uma vez que este é eliminado? Logo após a derrota da seleção brasileira, meu pai, por exemplo, imediatamente passou a torcer para Portugal (país de origem de meus avós) e, quando este foi eliminado, para a França (país de origem de meus tios-avós).

O apego pela nação não se dá apenas pela vivência direta, mas também pela genealogia: por ser de ascendência portuguesa, Pelé igualmente começou a torcer por Portugal após a eliminação do Brasil. Quando outros critérios entram em jogo, parece ser necessário justificar-se: ao torcer pela Argentina na etapa final do Mundial, Cristiane se desculpou aos amigos brasileiros, por romper com sua “brasilidade”: “Eu falei, gente, desculpa (…) aqui no Brasil é mal olhado isso”.

Segundo atacante: eu tive minhas respostas?

Todos os meus entrevistados se sentem brasileiros e gostam muito disso. “[Quando estou fora do Brasil] eu gosto muito de me sentir brasileira, eu gosto muito de falar que eu sou brasileira e gosto muito quando eu volto pro Brasil”, diz Cristiane. Na mesma linha, Pelé afirma: “É isso que te torna brasileiro, é o sentimento que você tem pelo teu país. O que você pensa que seria melhor pra esse país, independente da roupa ou da cor que você vestindo ou da posição política que você tenha”. Por sua vez, Marta relata que “Minha relação com ser brasileira vem do coração mesmo, porque sempre senti que precisava ‘compensar’ o fato de que não nasci no Brasil. A época da Copa apresenta uma oportunidade de exercer isso de um jeito lúdico, e de conectar com os outros brasileiros por uma coisa positiva”. Esse “vem do coração” de Marta diz muito sobre os sentimentos de patriotismo: é algo emocional, difuso, difícil de colocar em palavras, como vimos com os conceitos de afetos e atmosferas.

Como já comentei aqui, os afetos que me atravessam em relação à figura do Brasil e do Estado-nação são mais negativos, e isso não me anima a torcer nesses megaeventos. Mas senti essa energia de conexão em outros contextos: em manifestações políticas, um grupo marchando e clamando algo em uníssono; na parada LGBTQIA+, sabendo que a minha comunidade estava toda ali, existindo com orgulho; e até mesmo em feiras literárias, já que a leitura, sendo parte da minha identidade, fazia com que, ali, eu me sentisse unida com outros leitores. Atmosferas criam grupos.

Assim, por mais que não consiga me identificar com o nacionalismo daqueles com quem conversei, ou de torcedores em geral, eu consigo entender de onde ele vem: dos afetos, dos apegos, das atmosferas. Consigo, portanto, entender como me vi ao menos em parte absorvida pelas energias torcedoras nos jogos do Brasil que assisti em grupo.

Por que pessoas torcem e por que pessoas críticas podem se sentir acometidas a torcer? Porque os atravessamentos são muito fortes. Primeiro, a nação articula sentimentos que já estão dentro da gente — para mim, pesa principalmente o apego familiar e meu relacionamento com meu pai, grande torcedor e para quem futebol é muito importante. Eu me importo com o jogo porque ele se importa com o jogo, e consigo deixar meu ceticismo e minha crítica de lado por uma hora e meia para ter um momento de proximidade com alguém especial para mim. Segundo, absorvemos as energias daqueles que estão ao nosso redor: assistindo a um jogo em grupo, é impossível não se animar com o entusiasmo dos outros; mesmo assistindo sozinho a uma partida, o público e os comentadores fazem parte da criação de uma atmosfera em casa, também difícil de ser esquivada. De fato, as atmosferas são construídas nos momentos mais banais do dia a dia, especialmente no Brasil: as ruas pintadas, bandeiras por todos os lados, o verde e amarelo nas roupas, nos carros, nas janelas; ao andar pela rua, vamos absorvendo essa animação de todos os lados. Quando o Brasil faz gol: gritaria dos vizinhos, rojões aqui e acolá. Talvez isso construa meu afeto negativo com a Copa: minha sensibilidade sensorial autista me fazendo odiar rojões e fogos de artifício, mais presentes nessa época — mas percebe-se aí que os afetos são disputados, e não seguem uma linha reta: nem tudo que pretende construir afetos positivos é recebido assim… Tudo isso faz parte de evitar um “estraga prazeres”, deixa mais difícil a crítica transparecer.

* Maria Thereza Dumas é mestre e doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Pesquisadora na Rede International Political Sociology Brasil e escritora da newsletter ensaística “à margem”, no Substack.

Referências

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APPADURAI, Arjun. The Future as Cultural Fact: Essays on the Global Condition. London and New York: Verso, 2013.

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COSTA, Anne Beatriz Gonçalves; MALCHER, Maria Ataíde. Futebol e Identidade Nacional Brasileira. In: X Congrsso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Norte. Boa Vista, RR. Anais Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2011.

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HADAMA, Patrícia Dias. Cultura Brasileira: a influência do futebol na formação da identidade nacional. Perspectivas Latinoamericanas, no.15-16, p.20-38, 2018-2019.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP & A Editora, 1999.

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MONTANINI, Marcelo. Como Trump e a Fifa confirmaram o que se esperava deles na Copa. Nexo, 06 de julho de 2026. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/07/06/trump-liga-para-fifa-eua-x-belgica-copa-do-mundo

NEXO JORNAL. O mundo da Copa: 96 anos de história através do futebol. Youtube, 12 de junho de 2026. 39min50s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dshoeN52Om4&t=1s

SOUZA, Denaldo Alchorne. Mitos, Futebol e Identidade Nacional (1930-1083). In: GIGLIO, Sérgio Settani; PRONI, Marcelo Weishaupt (eds.). O futebol nas ciências humanas no Brasil. São Paulo: Editora Unicamp, 2020.

STEPHENS, Angharad Closs. The affective atmospheres of nationalism. cultural geographies, Vol. 23, no. 2, p. 181-198, 2015.


[1] Para saber mais sobre interferências da política em contextos de Copa do Mundo, recomendo o vídeo do Nexo “O mundo da Copa: 96 anos de história através do futebol”.

[2] Para manter o anonimato dos entrevistados, eles serão referenciados por nomes de grandes jogadores do futebol brasileiro: Pelé, Cristiane e Marta.


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