O que resta do internacional? A provocação sugerida pela 1ª edição da ColabRI poderia parecer superada na medida em que o internacional, como conceito ou disciplina, foi palco de grandes contestações que serviram de base e condição de possibilidade para o chamado Quarto Debate das Relações Internacionais. Especialmente entre pós-estruturalistas (autodenominados “dissidentes”) e pós-coloniais, as discussões sobre o internacional foram seguidas e fomentadas por desconstruções em torno do tema da “soberania”, mais especificamente, da soberania estatal enquanto única forma possível de exercício da autoridade e da política[1]. Tais discussões desdobraram-se em outras, abarcando o papel da anarquia e da ordem, como também foram tensionadas por clivagens de classe, raça, gênero, humanos e não-humano. Em suma, esses debates caminharam para a denúncia do internacional enquanto um regime moderno-colonial e um campo disciplinar que delimitam o fazer político, ou seja, qual política é autorizada e quem é passível de exercê-la[2]. Ao mesmo tempo, destacaram como o internacional sempre foi, e permanece sendo, um espaço altamente contestado.

Talvez esses questionamentos tenham se intensificado na medida em que dinâmicas e atores marginalizados pela preponderância de uma ontoepistemologia central conseguiram agir nos interstícios, questionando representações estanques e a organização de percepções que cristalizam as desigualdades produzidas pelo internacional a partir do capitalismo, do colonialismo ou de outras maneiras de se estruturar as relações político-sociais. Nas últimas décadas, as críticas nas Relações Internacionais vêm ganhando proeminência a partir do aporte teórico-conceitual proveniente dessas margens que, calcado nas práticas diárias de seus atores e sua relação com o território, coloca em xeque os entendimentos comuns sobre tempo, espaço e diferença que são pilares da lógica moderna. É importante salientar que, se por um lado, tais atores e práticas já haviam sido de alguma forma “identificados” pela disciplina, especialmente a partir da literatura sobre Sociedade Civil Global e suas variantes, por outro, suas produções teórico-conceituais encontraram lugar entre os acadêmicos apenas em anos mais recentes. Assim, termos como pluriverso, relacionalidade, Bem Viver, entre outros, adentraram as Relações Internacionais com a promessa de democratizar e renovar a disciplina[3].

Embora estes mesmos objetivos tenham permeado a literatura sobre Sociedade Civil Global, levando a uma série de romantizações a respeito dos fenômenos então observados[4], no caso atual os escritos acadêmicos se diferenciariam a priori pelo aprofundamento da virada ontológica. Nesse sentido, tributários das discussões do Quarto Debate bem como dos Estudos Indígenas e do debate Decolonial, esses escritos têm entre suas características a busca por contemplar o Outro em sua alteridade, atentando para como seus modos de vida e sua luta pela descolonização podem transtornar o internacional e aprofundar a denúncia à reprodução de desigualdades. Ademais, a introdução dessas concepções Outras enquanto categorias teria o potencial de contribuir para se analisar e vislumbrar práticas no internacional calcadas na coexistência entre diferentes.

Todavia, não se deve pressupor um automatismo na forma como tais conceitos/modos de vida são mobilizados. Pelo contrário, assumir seu caráter meramente “positivo” ou de resistência à dominação visando a construção quase que instintiva de um internacional mais justo, democrático, de “possibilidades de devir”, sem observar dinâmicas locais ou outras camadas que permeiam as práticas de tais atores poderia levar à mesma romantização observada na literatura sobre Sociedade Civil Global. Com isso, tais abordagens poderiam despolitizar esses atores, incorrendo em última instância em sua recolonização[5] ou na repetição do padrão sinônimo versus antônimo que Walker afirma ser constitutiva da modernidade[6].

Neste ponto, proponho que uma das formas de se procurar escapar a essas armadilhas é voltar o olhar acadêmico e muito bem treinado para um determinado tipo de internacional: o local. O objetivo aqui é perseguir um distanciamento desse internacional preponderante; um distanciamento capaz de gerar um estranhamento que possibilite não apenas outras imaginações, como também a identificação de outras práticas internacionais já existentes. Obviamente, minha proposta descarta o automatismo observado acima, especialmente quando entendemos que tanto atores coletivos, particularmente os movimentos sociais, quanto a política em si, são caracterizados pela mudança, pela “constância da movimentação”. Nesse sentido, sugiro que uma série de questionamentos emana e complementa a pergunta de partida “o que resta do internacional?”. Talvez, para nos aproximarmos de uma resposta deveríamos nos perguntar não apenas “o que é o internacional?”, mas, previamente a isso, “o que ocorre com o internacional quando olhamos para o local?”, “o que ocorre com o local quando o internacional deixa de ser nosso referencial” e “o que ocorre quando o internacional se territorializa a partir das margens?”.

Esses são alguns dos questionamentos que vêm ocupando minhas análises após um longo processo de amadurecimento, produto das renovações teóricas da disciplina e imbricado nessa busca pelo local. Esse local foi inicialmente pensado como dimensão; depois, como espaço; e, atualmente, como território que excede e não é contemplado pela gramática moderna—do Estado-nação ou do internacional dominante—que nega qualquer possibilidade de coexistência espaço-temporal[7]. Para isso, entender o ator coletivo, especialmente os povos indígenas, apresenta-se como um dos muitos caminhos possíveis. Esse caminho envolve conhecer seus modos de vida e de produção de mundos em suas tensões internas e externas, assim como certa aproximação com a literatura indígena e a literatura antropológica centrada no conceito de cosmopolítica.

Embora nem toda política indígena seja considerada uma política de “fazer mundos”, calcada no cosmos e na relação simbiótica com a terra/território—consideração indispensável para se evitar recair em armadilhas que respondem, sobretudo, ao desejo de acadêmicos—, o conceito de cosmopolítica nos traz algumas contribuições. De la Cadena[8] aponta como ele excede as formas liberais modernas de política, sendo capaz de comportar características estratégicas e relacionais entre todos os seres vivos (animados e inanimados). Ainda, embora uma tradução entre modos de vida radicalmente distintos seja algo falho, a cosmopolítica admite mediações, o que seria alcançado pelo que a autora denomina de “conexões parciais”[9] e Bold chama de “negociações cosmopolíticas”[10]. Ambas as autoras se referem à “mobilização de uma gramática moderna pelos povos indígenas, dando ao seu discurso um significado mais compreensível para mundos não-indígenas e, simultaneamente, mantendo um sentido de alteridade que excede a modernidade”[11]. Essas negociações são particularmente observadas em discursos que coadunam ancestralidade e ciência moderna, a articulação entre tempo e espaço através da mobilização da noção de “crise climática” e da relevância dos territórios indígenas, mesmo em dinâmicas políticas “localizadas” nos Acampamentos Terra Livre, por exemplo[12].

Questões como as mencionadas acima nos sugerem possibilidades múltiplas não apenas de se pensar sobre o internacional, mas de descentrá-lo a fim de questionar seus possíveis significados. Esse estranhamento, por sua vez, suscita indagações subsequentes acerca dos demais conceitos que historicamente conformaram a cadeia de significantes do mainstream da disciplina. Por fim, e talvez mais importante, o distanciamento estratégico, que se relaciona também à busca por referenciais teórico-conceituais mais plurais (entre os quais, o de cosmopolítica), nos permite de fato reivindicar o território de formas múltiplas, e entendê-lo, junto a seus sujeitos, enquanto produtores de política internacional a partir da realização de outros mundos, em constante tensão com o internacional-moderno-colonial. Dito de outra forma, essas opções teórico-metodológicas nos permitem observar dinâmicas Outras, compreendendo o complexo processo de territorialização do internacional.

* Professora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (PPGRI-Unila) e do curso de Relações Internacionais e Integração da mesma universidade.


[1] Para alguns marcos, ver Ashley, Richard. Untying the sovereign state: a double reading of the anarchy problem. Millennium, v.17, 1988, p.227-262; Beier, Marshall (ed). International Relations in uncommon places: indigeneity, cosmology, and the limits of international theory. New York: Palgrave MacMillan, 2009; Inayatullah, Naeem; Blaney, David. International Relations and the Problem of Difference. New York: Routledge, 2004; Picq, Manuela Lavinas. Vernacular sovereignties: indigenous women challenging world politics. Tucson: University of Arizona Press, 2018; SHAPIRO, Michael J. Methods and nations: cultural governance and the indigenous subject. New York: Routledge, 2004; Shaw, Karena. Indigeneity and political theory: sovereignty and the limits of the political. London: Routledge, 2008; e WALKER, RBJ. Inside/outside: international relations as political theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

[2] Delgado, Ana Carolina Teixeira; Meireles Neto, Elias Colares. “The Future Is Indigenous”: APIB’s Cosmopolitical Activism and the Free Land Camps’ Mobilizations. Revista Brasileira De Política Internacional v.67, n.2, 2024, p.1-20.

[3] Ver, dentre outros: Querejazu, Amaya. Encountering the pluriverse: looking for alternatives in other worlds. Revista Brasileira de Política Internacional, v.59, n.2, 2016; Rojas, Cristina. Contestando as Lógicas Coloniais do Internacional: Rumo a uma Política Relacional para o Pluriverso (tradução). Monções: Revista De Relações Internacionais Da UFGD, vol.8. n.15), 2019, p.519–543; Tickner, Arlene; Blaney, David. Claiming the International. New York: Routledge, 2013; Blaney, David; Tickner, Arlene. Worlding, ontological politics and the possibility of a decolonial IR. Millennium, v.45, n.3, 2017, p.293-311; Trownsell, Tamara et al. Recrafting international relations through relationality. E-International Relations, 2019. Disponível em: https://www.e-ir.info/2019/01/08/recrafting-international-relations-through-relationality. Acesso em: 9 out. 2025.

[4] Chandler, David. Building global civil society ‘from below’? Millennium, v.33, p.313-339, 2004; Walker, RBJ. After the Globe, before the World. New York: Routledge, 2010.

[5] Chandler, David; Reid, Julian. Becoming Indigenous: the ‘speculative turn’in anthropology and the (re) colonisation of indigeneity. Postcolonial Studies, v.23, n.4, p.485-504, 2020; Delgado, Ana Carolina Teixeira. Suma Qamaña as a strategy of power: politicizing the Pluriverse. Carta Internacional, v.13, n.3, p.236-261, 2018

[6] Walker. After the World, op cit.

[7] Ver Lage, Victor Coutinho; Chamon, Paulo. Resisting the denial of coevalness in International Relations: provincializing, perspectivism, border thinking. Revista Brasileira de Política Internacional, v.59, 2016; Fabian, Johannes. Time and the Other: how anthropology makes its object. New York: Columbia University Press, 1983; Rivera Cusicanqui, Silvia. La raíz: colonizadores y colonizados. In: Albó, Xavier; Barrios Morón, Raúl (orgs). Violencias encubiertas en Bolivia. La Paz: CIPCA-Aruwiyiri, 1993, p. 27-139.

[8] De la Cadena, Marisol. Indigenous cosmopolitics in the Andes: conceptual reflections beyond “politics”. Cultural anthropology, v.25, n.2, p.334-370, 2010.

[9] De la Cadena, Indigenous cosmopolitics, op cit, p. 348.

[10] Bold, Rosalyn. Indigenous perceptions of the end of the world: Creating a cosmopolitics of change. London: Palgrave Macmillan, 2019.

[11] Delgado; Meireles. “The Future Is Indigenous”, op cit.

[12] Delgado; Meireles. “The Future Is Indigenous”, op cit.


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