A sociabilidade entre diferentes povos, ultrapassando fronteiras étnicas, territoriais e/ou raciais é um dado antigo na história.[i] Tratativas para a viabilização de consensos, acordos, políticas e normas de cooperação, de conciliação e gestão coletiva de demandas sempre fizeram parte das dinâmicas das sociedades. Um exemplo é o Tratado de Paz Egípcio-Hitita, celebrado em 1.259 a.C. entre o faraó egípcio Ramsés II e o rei hitita Hattusilis III, o tratado mais antigo já conhecido, cuja réplica se encontra no edifício das Nações Unidas em Nova York.

Entretanto, a noção hegemônica do que é o “internacional” se refere a um espaço-tempo construído sobre as vigas do colonialismo, do regime transatlântico do tráfico escravagista e do capitalismo racial e patriarcal. Se o colonialismo representa a violência em sua forma bruta (Fanon, 1968) — isto é, o processo de dominação por meio da invasão territorial, da exploração de corpos e, do ponto de vista ontológico, da devastação da humanidade de certas pessoas —, o sistema que ele sustenta opera necessariamente por meio dessa violência. Dessa forma, o que se denomina “internacional” constitui um espaço-tempo de crueldade, um palco edificado para servir como locus exclusivo do sujeito moderno — coletivo ou individual — colonizador e imperialista. No início do século XX, W.E.B. Du Bois observou que a política internacional era tão pervadida pelas dinâmicas raciais, que as relações internacionais poderiam ser mais adequadamente designadas como “relações inter-raciais” (Du Bois, 1915).

Por outro lado, as estruturas, enquanto processos históricos em constante reprodução, podem ser desestabilizadas quando os agentes produzem e exploram fissuras, geram contra-narrativas e questionam o poder. Assim, o internacional sempre esteve em disputa. Nas “frinchas do sistema” (Nascimento, 2007), entidades estatais e não estatais fizeram uso da macro e da micropolítica para desafiar e alargar os sentidos e os limites desse espaço-tempo (Silva, 2021; 2025). Esses sujeitos reivindicaram soberania, peticionaram contra o regime de tutela na Liga das Nações; denunciaram sistemas internos de opressão; e organizaram movimentos e conferências, como as panafricanas, que propuseram modelos alternativos de convivialidade global. Além disso, fundaram instituições, a exemplo da Organização da Unidade Africana, teceram redes transnacionais contra o imperialismo, o apartheid na África do Sul e a ocupação da Namíbia, atuaram por dentro e por fora dos marcos do institucionalismo liberal. Também participaram de fóruns globais (como as Conferências Mundiais sobre Mulheres e a Conferência de Durban), articularam a produção de um regime jurídico antirracista e utilizaram plataformas como as Nações Unidas para amplificar suas vozes, tal como os discursos de Haile Selassie e de Amílcar Cabral.

Do lugar da marginalidade, apesar de todas as restrições e do esquema de guerra articulado internacionalmente contra seus corpos, movimentos sociais negros, indígenas, ciganos, de mulheres, antipatriarcais, antirracistas, anticapitalistas      etc. resistiram ao não-lugar do internacional, ao desempoderamento e ao silenciamento. Esses grupos demostraram notável capacidade de análise crítica e de leitura de mundo, utilizando-se de instrumentos legais, de instituições e tecendo redes de solidariedades para afirmarem o direito de existir dignamente e de agenciamento político. Mulheres negras, em particular, mobilizaram o corpo como território internacional, se insurgiram, aliançaram e interpelaram a política e o poder em esferas globais. Engajaram-se em lutas anticoloniais, antiescravistas, antiracistas, anticapitalistas e antipatriarcais, disputando a formulação de políticas e normas de direito internacional. Por isso, a academia ganha se direcionar a lupa para a forma com que os agentes contra-hegemônicos percebem, narram, desafiam, articulam, mobilizam, interpelam e vivenciam o internacional.

Esses movimentos disputaram a produção do direito e da política, organizando-se em diversas geografias e temporalidades. Desafiaram as noções tradicionais de nação e Estado, questionando atributos jurídicos como “fronteiras” e “nacionalidade”, e agenciaram por dentro e para além dos limites do sistema internacional. Ao fazê-lo, conceberam o transnacional, operando simultaneamente por dentro, nas frinchas, e contra as estruturas tradicionais.

Tais agências demonstram que o “lugar” do internacional não se resume a um ponto geográfico: longe de ser passivo, trata-se de uma espacialidade dinâmica, experimentada, impregnada por significados, práticas sociais, culturais e históricas. As práticas desses grupos interferem em como o tempo e o espaço são mutuamente percebidos, vivenciados e transformados, reconfigurando suas interrelações. Nas palavras de Milton Santos (2008, p. 39), “é como se a flecha do tempo se entortasse no contato com o lugar”.

O espaço-tempo do internacional, conforme concebido pelas hegemonias, caracteriza-se pela linearidade, o que pressupõe a existência de começo, meio e fim, delineando uma estrada retilínea que conduz a um futuro idealizado de desenvolvimento e de progresso. Em contrapartida, o tempo-espaço anti-hegemônico é circular: nele, não existe fim, sendo o passado uma força ativa que se mantém no presente. Nessa tríplice temporalidade curvilínea, passado, presente e futuro se entrelaçam dinamicamente e se entrecruzam às nossas intersubjetividades. Como afirmou Nêgo Bispo (Santos, 2018, p. 47), o olhar colonial “é vertical, é linear, não faz curva”. Na circularidade, cabe mais vida e complexidade do que na linearidade. A capoeira, o batuque, a gira do candomblé, ilustram essa mecânica, pois se fazem rodando, em movimentos circulares, simbolizando a continuidade e a interconexão da vida.

Assim, o espaço-tempo do internacional abrange tanto a esfera da regulação e do império como aquela das lutas por emancipação, costuradas por redes de solidariedade e de agenciamento. Nas fraturas do inter, as contra-hegemonias vivenciam o espaço-tempo circular do transnacional.

A gramática do “transnacionalismo”, em vez de “internacionalismo”, é mais adequada  para definir ativismos insurgentes, suas travessias e redes de conexões, porque, mesmo que não se possa afirmar que sempre houvesse intencionalidade explícita de contestar o Estado-nação como entidade político-jurídica, essas resistências acabaram por fazê-lo, uma vez que a própria construção das unidades estatais foi um processo de violência e exclusão dos povos que foram inferiorizados, estigmatizados como os inimigos na nação, ou os “condenados da terra”. Entender o mundo a partir da chave da “transnação” como categoria analítica é potente em diversos sentidos, pois permite: i) acolher as dinâmicas não estatais, não nacionais, as corporais e as transfronteiriças; ii) compreender epistemes, práticas e políticas que se deslocam além das fronteiras físicas; iii) colocar em cena os intercâmbios multifacetados entre nações, agrupamentos e etnias não reconhecidos pelo Direito moderno (quilombos, Jeje, Ketu, Guajajara, Payayas etc.); e iv) visibilizar os trânsitos de tradições e a síntese dessas interações culturais, crenças, experiências, estratégias de reivindicações, a produção de novos saberes, epistemologias das travessias, fórmulas alternativas de sociabilidades e, enfim, a tessitura de diferentes arranjos de poder. Além disso, conceitos e categorias oriundas dos movimentos negros, como “quilombismo” (Nascimento, 1980), “ladinoaméfrica” (Gonzalez, 2018) e “malungagem” (Branche, 2013), são, por definição, transnacionais. Ao navegar pelas correntezas da transnação, torna-se possível revelar a complexidade e a multidimensionalidade do pensar político global oposicional ao supremacismo branco, e ao capitalismo patriarcal e racial (Silva, 2025).

O “internacional” que reivindicamos é aquele que acolhe a coexistência de mundos plurais. O que está em jogo neste debate são as disputas dos sentidos dos mundos, os mundos em disputas, as disputas de mundos, disputas de poder sobre as narrativas, o tempo e as espacialidades.

Nas frinchas do internacional há refúgios, e há mundos que não pretendem hegemonizar, mas sim confluir. Conforme Bispo dos Santos (2023), a confluência revela mundos diversos que se afetam, experimentam a poética de afetação da vida em sentido amplo, se implicam em uma dimensão coletiva. As etnias indígenas, por exemplo, não rivalizam ou competem com os quilombolas; ao contrário, vivem em confluência de saberes, articulados por meio de “uma grande aliança cosmológica” (Santos, 2018, p. 46).

Claro que defendo o abolicionismo deste mundo internacional-colonial, cis-hetero-patriarcal-capitalista, e que entendo o poder das palavras como afirmação de sistema de opressão. Mas a simples mudança de nomenclatura não nos coloca em uma rota de fuga, uma janela de emergência pela qual cada qual salta para fora, agarra-se à sua boia, e encontra um refúgio, uma salvação. No debate dobre o que resta do internacional, surgem interrogações cruciais: de qual internacional estamos falando? Qual a relevância e utilidade de debater sobre o internacional? Este tema é importante fora da academia? Como levar este debate para rua? Qual o termo que melhor comunica nas esquinas, na mídia, fora dos muros da universidade? Como estratégia de luta, seria mais adequado abandoná-lo ou disputá-lo, reconhecendo a potencialidade de outras terminologias como o “global”, “pluriversal” ou “transnacional”? A quem serve o internacional que não queremos? Como a academia, na prática, persiste na manutenção do internacional hegemônico?

É certo que nos encontramos diante de encruzilhadas de sentidos, tempos e espaços. Mas a encruzilhada não é beco sem saída: é o lugar do encontro, do cruzamento de fronteiras, da confluência, dos múltiplos caminhos, e da assunção de responsabilidades. Aencruzilhada é, portanto, o princípio do movimento e da comunicação (Miranda, 2020). É o lugar de travessias, de contatos e de possibilidades que nos permitem costurar outras sociabilidades, confluências, alianças; e imaginar outras formas de habitar e existir no mundo.

* Professora dos Programas de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI) e em Direito (PPGD) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora Produtividade em Pesquisa PQ/CNPq. E-mail: karine.silva@ufsc.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9212-8818. Esta pesquisa foi realizada com recursos do CNPq.

Referências

BRANCHE, Jerome. Malungaje: hacia una poética de la diáspora africana. In: WALSH, Catherine (org.). Pedagogías decoloniales: prácticas insurgentes de resistir, (re)existir y (re)vivir. Quito: Abya-Yala, 2013, pp. 165-187.

DU BOIS, W. E. B. The African Roots of War. The Atlantic Monthly, v. 115, n. 5, pp. 707-714, 1915.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras. São Paulo: Filhos da África, 2018, pp. 321-334.

MIRANDA, Eduardo O. Corpo-território & Educação Decolonial: proposições afro-brasileiras na invenção da docência. Salvador: UFBA, 2020.

NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: documentos para uma militância pan-africanista. Petrópolis: Vozes, 1980.

NASCIMENTO, Beatriz. O quilombo como instituição nos períodos colonial e imperial no Brasil. In: RATTS, Alex. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007, pp. 117-125.

SANTOS, Antonio Bispo. Somos da terra. Piseagrama, n. 12, pp. 44-51, ago. 2018. Disponível em: https://piseagrama.org/artigos/somos-da-terra/. Acessado em 26 nov. 2025.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu; Piseagrama, 2023.

SANTOS, Milton. O lugar: encontrando o futuro. RUA: Revista de Urbanismo e Arquitetura, n. 6, pp. 34-39, 2008.

SILVA, Karine de Souza. “Esse silêncio todo me atordoa”: a surdez e a cegueira seletivas para as dinâmicas raciais nas Relações Internacionais. Revista de Informação Legislativa, v. 58, pp. 37-55, 2021.

SILVA, Karine de Souza. Calunga grande, o transnacionalismo negro e o Brasil. Brasília: FUNAG, 2025.


[i] Busco inspiração, para o título de texto, na formulação utilizada por Beatriz Nascimento (2007) para se referir aos quilombos como uma instituição que atravessa diferentes períodos históricos do Brasil, desde os tempos coloniais.


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