O texto que se segue é uma resenha publicada na revista Cahiers du Genre, originalmente em francês, do livro de Luis Martinez Andrade, Feminismos a la Contra, Entrevistas al Sur Global.[i]Propus a publicação hoje e em português desse texto, de 2019, no esteio da publicação recente do texto FMI Universitário, do professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle, na revista Piauí.[ii]

O texto do professor Safatle, uma excelente síntese de uma parte do debate anticolonial, pós-colonial, decolonial e suas variações, foi brilhantemente respondido pela professora Luciana Ballestrin em post no seu Substack.[iii] A resenha que se segue, dessa forma, não responde diretamente ao texto do professor Safatle, como faz a professora Ballestrin. Pareceu-me que ela pudesse, ainda assim, contribuir à saudável discussão que o texto da Piauí suscitou por dois motivos.

Primeiro porque, no texto da Piauí, a contribuição das pensadoras de Abya Ayla para a crítica sobre a colonialidade elaborada pelo grupo Modernidade/Colonialidade (que é o foco do texto de Safatle) é tratada como periférica. O professor da USP diz que a deixará de lado porque gostaria de se concentrar na “parte central” do pensamento desse grupo, ou no “grupo hegemônico”. Naturalmente, uma das formas de reforçar a crítica a esse grupo hegemônico seria, justamente, reforçar as interpretações não-hegemônicas que não incorrem nos mesmos problemas – uma escolha que o professor Safatle decide que não fará e que é perfeitamente legítima. No entanto, é também uma escolha que não só enfraquece a crítica que ele pretende fazer, mas também o debate, ao ignorar que as críticas feministas sobre colonialidade em geral não vêm de universidades do Norte Global e tentam, justamente, atacar dimensões mais materiais da colonialidade – não diretamente o monopólio, mas o extrativismo e a destruição dos comuns, como as entrevistas do livro de Martinez apontam. A miopia em relação a essas questões materiais e a essas lutas é, exatamente, o centro da crítica de Safatle ao que ele chama de “FMI Universitário”.

Em segundo lugar, a crítica de Safatle também se sustenta num foco estreito que ataca apenas uma parte do pensamento do grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), isto é, a colonialidade do saber. A outra parte do argumento desse grupo, ligada ao próprio conceito de modernidade, é silenciada. As feministas contrárias[iv] e não-hegemônicas entrevistadas por Martinez Andrade respondem, assim, ao professor Safatle nesses dois pontos: por um lado, aproveitando positivamente e levando à frente a ideia de “modernidade realmente existente” do grupo M/C e, por outro, focando em dimensões de lutas materiais que o grupo tende a subestimar.

Segue abaixo o texto, com a lembrança de que, ao escolhermos não ignorar as críticas das feministas que pensam os efeitos generificados, coloniais e materiais das políticas do FMI literal e de tantas outras denunciadas pelas mulheres, podemos evitar criar FMIs metafóricos de palha. A discussão ganha – bem como o pensamento das feministas contrárias, ainda e sempre marginalizado pelos professores hegemônicos.

***

Feminismos a la contra: Entre-vistas al Sur Global trata das teorias feministas do Sul Global. Luis Martínez Andrade é especialista em teologia da libertação, movimento que se desenvolveu no interior da Igreja Católica sul-americana e foi considerado herético pelo Vaticano. A teologia da libertação, da qual um dos principais teóricos é o ex-bispo brasileiro Leonardo Boff, postula um “cristianismo da libertação”, dos oprimidos, uma Igreja que faz a “opção pelos pobres” (em oposição à sua rica hierarquia). Ela se difundiu entre camponeses e movimentos de esquerda nas Américas e, durante os períodos ditatoriais, desempenhou um papel fundamental de resistência e transmissão de lutas.

A partir dos anos 1990, as evoluções mais recentes dessa corrente levaram a teologias ecologistas, feministas e até mesmo teologias queer. Apesar da aparente contradição em termos, a teologia queer questiona, assim como a teologia da libertação, os dogmas e postulados da Igreja Católica, propondo outras interpretações que seriam mais “próximas dos(as) oprimidos(as)” e “libertadoras”. É, portanto, por meio dessa “convergência” entre críticas emancipatórias da Igreja Católica que Martínez Andrade chegou aos questionamentos sobre as teorias feministas pós-coloniais.

O livro compõe-se de 16 entrevistas conduzidas pelo autor, que constituem, cada uma, um capítulo da obra. As numerosas propostas teóricas, feministas e “sulistas” (isto é, oriundas do Sul Global) tecem fios condutores ao longo das discussões entre Martínez Andrade e suas diversas interlocutoras.

Grande parte das pesquisadoras entrevistadas é mexicana, notadamente Sayak Valencia, Márgara Millán e Mariana Mora Bayo. Outras estão vinculadas a instituições no Norte Global e possuem nacionalidades europeias, como Françoise Vergès, Sonia Dayan-Herzbrun ou Leila Benhadjoudja – elas encontram, no entanto, seu lugar em um livro sobre feministas do “Sul Global” porque o Sul não é um espaço, mas uma relação. Mais especificamente, uma relação particular na modernidade ou com a modernidade. Os “Suis” também se encontram dentro das fronteiras compreendidas como pertencentes a países europeus ou “desenvolvidos”.

Definir o Sul como uma forma de relação com a modernidade impõe uma reflexão teórica sobre sua própria definição. As autoras são, assim, chamadas a dialogar com a corrente Modernidade/Colonialidade e com o conceito de “modernidade realmente existente”. Segundo Aníbal Quijano, autor dessa expressão, a modernidade é um projeto político e econômico que se inicia no século XV e que utiliza a ideia de uma “modernidade racional” e “desencantada” para justificar um projeto de dominação sobre povos que ainda não teriam acessado o Iluminismo. O Iluminismo seria uma categoria ideológica, enquanto a modernidade realmente existente é um processo histórico.

Feminismos a la contra discute como as experiências das mulheres do Sul Global iluminam partes da modernidade realmente existente que permaneceriam ignoradas, por um lado, pelas feministas do Norte e, por outro, pelos autores “fundadores” do grupo Modernidade/Colonialidade.

De quais experiências se fala? Silvia Federici, em sua entrevista, evoca, por exemplo, a experiência dos comuns, ou seja, a partilha de bens fora das lógicas privadas, individuais, submetidas ao Estado ou ao mercado. Essa experiência nunca informou o pensamento ou a prática feminista na Europa, porque, quando o feminismo se desenvolveu ali, os comuns já não existiam mais (o cercamento dos comuns na Inglaterra no século XIX é o exemplo paradigmático do seu fim). Pensar as relações de gênero a partir dos quadros do “Norte” significa, portanto, pensar as relações de gênero a partir de uma certa experiência da modernidade, que não é universal nem necessária.

Na primeira entrevista do livro, Rita Segato, antropóloga argentina que trabalha há muito tempo no Brasil, afirma que essa perda dos comuns, um processo concluído na Europa, ainda é atual nas Américas. As lutas das mulheres contra o extrativismo (isto é, a exploração mineira, petrolífera ou agrícola extensiva que domina a paisagem econômica latino-americana e despoja comunidades de seus territórios) são a expressão da comunalidade que ainda existe nesse Sul Global. Poder-se-ia mencionar Chiapas e o papel central das mulheres zapatistas na luta pela autonomia e defesa dos territórios, mas este é apenas o exemplo mais célebre: essa mesma luta é travada por outros grupos de mulheres no Peru, na Bolívia, no Chile, no Brasil e em todo o continente.

Ocorre, então, uma inversão de perspectiva. Se a persistência desses territórios à margem do Estado e dos mercados pôde ser percebida em outros momentos como representante de uma lógica “atrasada” — reduzindo essas mulheres a grupos que “ainda não entraram na história” e, por isso, fora do feminismo — as entrevistas de Martínez Andrade no Sul Global nos permitem vislumbrar uma contra-história. Estudar as mulheres latino-americanas, especialmente as ameríndias, como sujeitos políticos, fundamenta um novo olhar sobre a história política das mulheres na modernidade.

Outros debates decorrem disso, mais específicos desses contextos, mas igualmente ricos para pesquisadoras que se interessam pelo gênero além das Américas: as sociedades ameríndias, inseridas de maneira inacabada no Estado e no mercado, seriam patriarcais? Rita Segato fala em “patriarcado de baixa intensidade”; outras mencionarão a ideia de “inexistência do patriarcado”. Não se trata, aqui, dos espaços urbanizados e industrializados das grandes capitais da região, mas dos espaços rurais e das florestas (Amazônia e Andes). O conceito de complementaridade andino, o sinchi warmi, é uma forma de patriarcado? Pode ser explicado pelo prisma do gênero? As respostas a essas questões, que o livro discute detalhadamente, ampliam nosso repertório teórico, oferecendo chaves que permitem sair de uma oposição simplista entre um “antes” emancipado e autêntico e um “depois” colonizado e patriarcal (ou o contrário).

Trata-se de compreender o lugar do gênero nas relações complexas entre a ideologia da modernidade e a realidade das lutas pela salvaguarda dos comuns. Trata-se também de desenvolver um pensamento que restitua as minorias de gênero e sexuais do Sul Global ao seu lugar de sujeitos históricos e agentes.

Um último ponto teórico, ligado ao conceito de mestiçagem, representa um interesse particular para o público francês. Nos últimos anos, o feminismo chicano dos Estados Unidos, de autoras como Gloria Anzaldúa, monopolizou o debate e chegou à França com toda uma literatura sobre raça importada dos EUA. A experiência de Anzaldúa, sua ideia de mestiçagem, é também muito específica ao contexto de onde escreve. Anzaldúa fala da mestiçagem como uma não-identidade ou uma identidade de fronteira. Uma análise crítica ainda precisa ser feita sobre como abordar o tema espinhoso da mestiçagem. Nenhuma autora afrofeminista (pensa-se imediatamente em Mara Viveiros Vigoya, Sueli Carneiro ou Djamila Ribeiro) é entrevistada, embora as contribuições do afrofeminismo sejam incontornáveis para a proposição de um discurso crítico das relações de raça e de suas especificidades latino-americanas. Em certos contextos latino-americanos, a mestiçagem aparece mais como uma ideologia nacional que serviu a lógicas de branqueamento utilizadas para sufocar os debates sobre as hierarquias raciais existentes. Dito isto, Feminismos a la contra nos retira dos caminhos já trilhados da discussão sobre as relações de raça e nos abre novas perspectivas.

Outro desafio da obra reside no debate com os pensadores da Modernidade/Colonialidade. As críticas, como as de María Lugones, dirigidas à corrente eminentemente masculina dos pós-coloniais latino-americanos, não são mencionadas seriamente. As respostas de Aníbal Quijano a Lugones, por exemplo, que qualificam as questões de gênero como claramente secundárias em relação às questões de colonialidade, nunca são discutidas nem formuladas pelo autor às suas entrevistadas. Embora o livro coloque de maneira nítida a questão da invisibilização das teorias do Sul no panorama do pensamento feminista global, pode-se, ao lê-lo, ter a impressão errônea de que o lugar do gênero no pensamento decolonial não é questionado. Martínez Andrade está claramente convencido do lugar do gênero no pensamento pós-colonial latino-americano. No entanto, se ele pede às feministas do Norte que ouçam as do Sul, seus pares mais imediatos — isto é, os autores (homens) da Modernidade/Colonialidade — não são convocados da mesma maneira a ouvir as “feministas contrárias”.

* Professora do curso de graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)


[i] Martínez Andrade, Luis. Feminismos a la contra: Entre-vistas al Sur Global (Santander: La Vorágine, 2019) O texto completo da obra se encontra disponível em: https://www.bibliotecafragmentada.org/wp-content/uploads/2019/08/Feminismos-a-la-contra-6.pdf. Último acesso em 23 de janeiro de 2026. A resenha original em francês está disponível em: https://shs.cairn.info/revue-cahiers-du-genre-2021-1-page-225c?lang=fr. Último acesso em: 23 de janeiro de 2026.

[ii] Safatle, Vladimir. “O grande FMI universitário: como o colonialismo domina os estudos decoloniais”. Piauí, edição 232, janeiro de 2006. Uma versão para assinantes está disponível no link a seguir: O grande FMI universitário – revista piauí. Último acesso em 23 de janeiro de 2026.  

[iii] Ballestrin, Luciana. Entre Olavo de Carvalho e Vladimir Safatle, os estudos decoloniais (e eu). Publicado na página tempos críticos, do Substack, em 16 de janeiro de 2026. Disponível em: Entre Olavo de Carvalho e Vladimir Safatle, os estudos decoloniais (e eu). Último acesso em 23 de janeiro de 2026.

[iv] Estou me permitindo adaptar o título do livro de Martínez Andrade para definir o conjunto de autoras entrevistadas como “feministas contrárias” – o que parece fazer ainda mais sentido no contexto do atual debate.


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